Se já ouviste “Não sei o que desenhar”, enquanto uma criança fica a olhar para uma folha em branco… estás em muito boa companhia. Cá em casa, essa frase normalmente não quer dizer “não sou criativo”. Mais vezes quer dizer que a folha parece enorme, as opções parecem infinitas e começar parece arriscado.
Por isso, se estás à procura de o que desenhar quando uma criança não tem ideias, aqui vai o que costuma ajudar mais: dar sugestões pequenas e divertidas—daquelas que baixam a pressão e acendem uma pequena história. Abaixo encontras ideias rápidas de desenho por temas (animais, fantasia, família, natureza e objetos do dia a dia), além de um jogo simples de “lotaria de temas” que podem fazer à mesa da cozinha.
Antes das sugestões: um pequeno truque que ajuda de imediato
Uma coisa que aprendi (tanto como pai como alguém que adora desenhar) é que, muitas vezes, as crianças bloqueiam quando acham que têm de fazer “algo bom”. Se queres pôr o lápis a mexer, experimenta trocar por uma destas frases:
- “Vamos desenhar uma coisa parva de propósito.”
- “Vamos fazer um desenho de um minuto.”
- “Hoje estamos só a testar ideias.”
O ambiente muda depressa. E, quando a tensão baixa, a página deixa de parecer tão assustadora.
O que desenhar quando uma criança não tem ideias (sugestões rápidas por tema)
Escolhe uma sugestão, ou deixa a criança escolher duas e juntá-las. Misturar ideias é muitas vezes quando as crianças se surpreendem a si próprias.
Animais (resultados rápidos, sempre)
- Um gato a usar galochas
- Um cão que sabe falar—qual é a comida preferida dele?
- Um pinguim de férias num sítio quente
- Uma coruja com uma mochila gigante (para onde é que vai?)
- Uma tartaruga a conduzir um carrinho minúsculo
- Um peixe com um hobby secreto
- Uma girafa que não cabe numa porta
- Um coelho a construir uma cabana com almofadas
- Um dinossauro no dentista
- O teu “animal inventado”: escolhe 3 partes (ex.: cabeça de leão + asas de pássaro + concha de caracol)
Perguntas que podes fazer: “Como se chama este animal?” “Que problema é que está a tentar resolver?” “Quem é o melhor amigo dele?”
Fantasia (para crianças que adoram grandes histórias)
- Um dragão pequenino que tem medo de velas
- Um castelo que flutua como um balão
- Um feiticeiro cuja magia só funciona às terças-feiras
- Uma sereia a encontrar algo surpreendente na praia
- Uma porta numa árvore (quem vive lá dentro?)
- Um super-herói com um poder muito estranho (fazer desaparecer meias?)
- Um mapa para um tesouro “não assim tão secreto”
- Um monstro simpático que adora festas do chá
- Um feitiço que correu mal—o que mudou?
- Um robô que quer aprender a dançar
Experimenta este empurrãozinho suave: “Mostra-me o que acontece a seguir.” As crianças desenham muitas vezes com mais liberdade quando sentem que estão a continuar uma cena, em vez de inventar tudo do zero.
Vida em família (quente, pessoal e perfeita para ligação)
- A tua família como animais (quem é quem?)
- Um piquenique na sala
- Um desenho de “obrigado” para alguém da família
- Uma tradição de família parva que podiam inventar
- Um retrato de alguém… com um toque especial (cabelo arco-íris, óculos gigantes, capa de super-herói)
- Uma memória de um fim de semana recente (mesmo que seja pequenina)
- Uma cena à mesa do jantar com as comidas preferidas de toda a gente
- A casa dos avós: uma divisão de que te lembras bem
- A “página secreta do diário” do animal de estimação da família
- Um cartaz de “mãos a ajudar”: toda a gente a fazer uma pequena coisa útil
Este é o tipo de desenho que se transforma numa recordação. Já vi um dos meus filhos desenhar a nossa família como animais enquanto eu fazia o jantar, e de repente eu sou um tigre, outra pessoa é um ratinho pequenino, e toda a gente tem uma capa. Esses pormenores disparatados são exatamente o que faz a página sentir-se como casa.
Perguntas que podes fazer: “O que é que toda a gente está a dizer?” “Qual é a parte mais engraçada desta cena?” “O que gostavas de acrescentar amanhã?”
Natureza (calmante, sensorial e ótima para qualquer nível)
- Uma árvore nas quatro estações (quatro quadradinhos)
- A maior flor que conseguires imaginar
- Uma nuvem que parece alguma coisa (ou cinco coisas)
- Um jardim para criaturas minúsculas (insetos, fadas, rãs—tu é que escolhes)
- Uma cena subaquática com plantas a ondular como cabelo
- Um céu noturno com constelações inventadas por ti
- Uma tempestade vista da janela (pingos de chuva, poças, guarda-chuvas)
- Uma montanha com uma gruta secreta
- Uma praia com “tesouros” (conchas, pedras, algas com formas)
- Uma folha vista de perto: desenha as nervuras como se fosse um mapa
Dica do dia a dia: Se a folha em branco parecer grande demais, começa com uma forma simples: um círculo grande (sol), uma linha ondulada (rio), um triângulo (montanha). As cenas de natureza crescem lindamente a partir de formas básicas, e as crianças não têm de “acertar à perfeição” para parecer real.
Objetos (para crianças que gostam de pormenores, padrões e de “como as coisas funcionam”)
- Uma mochila com cinco coisas surpreendentes lá dentro
- Uma cadeira digna de um rei/uma rainha (ou de um gato)
- Um “quarto de sonho” com uma característica parva (escorrega, chão de trampolim)
- O teu snack preferido como personagem
- Um relógio que mostra sentimentos em vez de horas
- Uma mistura de veículos: autocarro + submarino, bicicleta + foguete
- Uma caixa de tesouro—o que é que está lá dentro?
- O ponto de vista de um brinquedo (a olhar para cima para a divisão)
- Um par de sapatos a ir numa aventura
- Uma “nova invenção” para resolver um probleminha (suporte de colher, ajuda para trabalhos de casa, etc.)
Perguntas que podes fazer: “Como é que funciona?” “Quem é que o usaria?” “Que nome darias a esta invenção?”
O jogo da “Lotaria de Temas” (rápido, divertido, sem pressão)
Quando as crianças estão bloqueadas, às vezes escolher é mais difícil do que desenhar. Este joguinho escolhe por elas—sem ninguém sentir que está a mandar.
Como jogar
- Corta tirinhas pequenas de papel (ou usa post-its).
- Faz três montinhos: Personagem, Local, Reviravolta.
- Escreve opções em cada tirinha (usa as listas abaixo).
- Tira uma tirinha de cada monte e junta-as numa sugestão.
Ideias de personagens (escreve 8–12)
- Um urso cheio de sono
- Um dragão pequenino
- Uma avó corajosa
- Um robô curioso
- Um gato detetive
- Uma sandes falante
- Um monstro envergonhado
- Uma criança pirata
Ideias de locais (escreve 8–12)
- Na cozinha
- No fundo do mar
- Dentro de uma árvore
- Na lua
- Num parque com chuva
- Numa loja de doces
- Em casa da avó
- Numa gruta secreta
Ideias de reviravolta (escreve 8–12)
- Está tudo ao contrário
- É super pequeno
- É gigante
- Falta alguma coisa
- Há um erro engraçado
- Alguém está escondido
- É uma festa surpresa
- Começa a flutuar
Exemplo: “Um gato detetive + num parque com chuva + falta alguma coisa.” De repente, a página já não está vazia—é uma cena de mistério à espera de ser desenhada.
Materiais simples que provavelmente já tens em casa
- Papel simples (papel de impressora é perfeito)
- Lápis + borracha (ou sem borracha, se apagar causar frustração)
- Lápis de cera, marcadores ou lápis de cor
- Uma caneta preta para contornar (opcional)
- Papel de rascunho para “tentativas sem jeito”
Na nossa mesa, muitas vezes mantemos uma folha de “tentativas sem jeito” ao lado da página “bonita”. Essa pequena mudança no setup pode acalmar muitos nervos—especialmente numa criança que já sabe como quer que fique e se zanga quando a mão ainda não consegue acompanhar a imagem que tem na cabeça. (Cresci rodeado de artistas, e ainda sinto isso às vezes.)
Como reagir ao desenho de uma criança (sem o transformar numa performance)
Se queres ter a melhor hipótese de ela pegar no lápis outra vez amanhã, foca-te na história e no esforço—não no quão “bem” ficou.
- Repara em algo específico: “Adoro como fizeste a chuva com essas linhas.”
- Convida a contar uma história: “O que é que está a acontecer aqui?”
- Deixa que ela lidere: “Esta parte é importante?”
- Oferece uma opção suave: “Queres acrescentar um fundo ou preferes deixar simples?”
E se o desenho te parecer só rabiscos? Acontece imensas vezes. Muitas vezes quer dizer que há um filme inteiro a passar na cabeça deles. O teu trabalho não é corrigir a imagem—é perguntar onde é que o filme começa.
Um último pequeno convite
Da próxima vez que a tua criança disser que não sabe o que desenhar, escolhe uma sugestão pequenina (ou joga a Lotaria de Temas) e mantém as coisas leves. Cola o desenho no frigorífico, mete um na mala de um avô/uma avó, ou começa uma pequena “caixa de arte da família” para guardar os preferidos. O objetivo não é um desenho perfeito. É aquele momento sem ecrãs em que ela percebe: “Eu consigo fazer alguma coisa a partir do nada.”
É um hábito bonito para crescer em casa.