Se já se encontrou ao pé da mesa da cozinha, com uma obra-prima de giz de cera na mão, a pensar: “O que é que eu digo, para além de ‘Muito bem’?” — não está sozinho. As melhores perguntas para fazer sobre o desenho do seu filho não têm a ver com adivinhar o que “significa”. São perguntas simples e abertas que ajudam a criança a contar a história por trás da imagem.
Lá em casa, os desenhos aparecem em todo o lado: colados no frigorífico, dobrados e metidos em bolsos, entregues aos avós como se fossem tesouros. Eu adoro desenhar, a minha mulher é a mais habilidosa — consegue transformar restos em magia — e eu cresci a ver a minha mãe a fazer arte com uma atitude tranquila de “vamos tentar outra vez”. Por isso aprendi (muitas vezes da forma mais difícil) que o verdadeiro presente não é o desenho final — é o momento de ligação em que uma criança se sente vista.
Porque é que as perguntas importam mais do que os elogios
Os elogios são ternos, mas podem, sem querer, pôr fim à conversa. “Que bonito!” pode arrancar um sorriso rápido… e depois a criança segue em frente.
As perguntas curiosas fazem algo diferente. Elas:
- Convidam a criança a guiar a conversa.
- Mostram que se importa com as ideias dela, não só com o resultado.
- Criam espaço para imaginação, faz de conta e histórias.
- Ajudam as crianças a lidar com a frustração quando o desenho não ficou como queriam.
E aqui vai um lembrete gentil: um desenho não precisa de uma interpretação psicológica. Às vezes, um cão roxo é só… um cão roxo. Perguntar em vez de analisar mantém tudo leve e seguro.
Perguntas para fazer sobre o desenho do seu filho
Use-as como um menu. Escolha duas ou três e siga o ritmo da criança. Se ela responder com uma palavra só, não faz mal — faça uma pausa, sorria e experimente outro ângulo.
Comece com perguntas simples que abrem a história
- “Conta-me sobre o teu desenho.”
- “O que é que está a acontecer aqui?”
- “O que é que eu devo reparar primeiro?”
- “Se este desenho tivesse um título, como lhe chamavas?”
- “Que parte foi mais divertida de fazer?”
Ajude a construir uma história (sem tomar conta)
- “Quem são as personagens?”
- “O que é que estão a fazer agora?”
- “O que é que aconteceu mesmo antes desta cena?”
- “O que achas que acontece a seguir?”
- “Isto é um sítio real ou um sítio imaginário?”
Explore sentimentos — de forma suave e natural
- “Como é que este sítio se sente?” (acolhedor, barulhento, assustador, parvo?)
- “Como é que esta personagem se está a sentir?”
- “O que é que tu gostavas de lhe dizer?”
- “Se este desenho tivesse música, como é que soaria?”
Pergunte sobre escolhas (cores, formas, detalhes)
- “Como escolheste estas cores?”
- “Qual é a tua cor preferida nesta folha?”
- “Qual é o detalhe mais pequenino que acrescentaste?”
- “O que é que demorou mais tempo?”
- “O que é que mudaste enquanto estavas a desenhar?”
Reforce a confiança quando a criança se sente bloqueada ou frustrada
Este é o momento que reconheço nos meus próprios filhos: o suspiro, a testa franzida, o “Não está bom.” Quando isso acontece, as perguntas podem aliviar a pressão.
- “Que parte é que está a ser difícil?”
- “Queres uma ideia, ou queres tentar à tua maneira primeiro?”
- “Qual é um passinho pequenino que podemos dar a seguir?”
- “Se pudesses acrescentar uma coisa, o que seria?”
- “Mostras-me como fizeste esta linha?” (as crianças adoram ser o professor)
O que evitar dizer (e o que dizer em vez disso)
A maioria dos adultos tem boas intenções, mas algumas frases comuns podem, sem querer, travar a criatividade.
- Em vez de: “O que é isso?” Experimente: “Conta-me o que se está a passar aqui.”
- Em vez de: “Isso é um cão?” Experimente: “Quem é esta personagem?”
- Em vez de: “Tens tanto talento!” Experimente: “Dá para ver que te esforçaste muito nisto.”
- Em vez de: “Deves desenhar assim…” Experimente: “Queres ver um truque que às vezes me ajuda?”
Uma pequena mudança que aprendi ao ver a minha mulher a fazer trabalhos manuais com as crianças: mantenha um tom curioso, não corretivo. As crianças conseguem ouvir um “corrige isso” mesmo quando não é essa a nossa intenção.
Dois momentos do dia a dia para experimentar estas perguntas
1) A apresentação na mesa da cozinha
A criança desliza uma folha pelo tampo enquanto você arruma depois do lanche. Antes mesmo de olhar com atenção, experimente:
- “Oh, o que é que eu devo reparar primeiro?”
- “Qual é o título?”
- “Que parte gostaste mais de fazer?”
Vai surpreender-se com a frequência com que uma conversa de cinco minutos se transforma numa história inteira — com reviravoltas.
2) A galeria do frigorífico (ou a parede do corredor)
Escolha um desenho por semana para expor. Depois faça uma pergunta como:
- “O que queres que toda a gente perceba quando vir isto?”
- “Há algum detalhe secreto que devamos procurar?”
Os meus filhos adoram dar “visitas guiadas” à sua arte como se fossem curadores. E quando os avós vêm cá a casa, isso dá-lhes um tema fácil e alegre para conversar para além do “Então, como vai a escola?”
Materiais simples que convidam a mais histórias em casa
Não precisa de materiais sofisticados. Algumas das nossas melhores conversas sobre desenhos acontecem com o que estiver mais à mão.
- Papel branco de impressora (ou o verso de publicidade)
- Gizes de cera e marcadores laváveis
- Lápis de cor
- Uma caneta esferográfica para crianças mais velhas que gostam de detalhe
- Fita de pintor para pendurar “exposições”
- Uma pasta ou uma caixa para guardar os preferidos (as crianças adoram ter um “arquivo”)
Uma “receita de conversa” rápida para quando não sabe por onde começar
- Repare: “Estou a ver muitas linhas/cores aqui.”
- Pergunte: “Conta-me sobre o teu desenho.”
- Siga: “E o que acontece a seguir?”
- Reflita: “Isso parece emocionante/parvo/acolhedor.”
- Convide: “Queres acrescentar mais alguma coisa, ou por hoje está terminado?”
E se a criança encolher os ombros e for a correr brincar? Isso também conta. O desenho pode ficar à espera em cima da mesa como uma pequena porta de volta para a conversa mais tarde.
Um último pensamento para a próxima vez que lhe entregarem um desenho
Quando uma criança lhe oferece um desenho, não está apenas a partilhar papel e cor — está a oferecer um pedaço do seu mundo interior. Não precisa de o decifrar. Só precisa de aparecer com curiosidade.
Por isso, da próxima vez que tiver na mão uma criação a giz de cera e não souber o que dizer, experimente uma pergunta suave. Depois ouça como se fosse a melhor história que ouviu o dia todo. Sinceramente, às vezes é mesmo. Que desenho está no seu frigorífico neste momento — e que história poderá estar escondida lá dentro?