Se está aqui porque deu por si a comparar os desenhos dos seus filhos, está em óptima companhia. Acontece nos momentos mais normais, ternos e caóticos: dois irmãos à mesa da cozinha, papéis por todo o lado, e um adulto (eu incluído, nos dias de mais cansaço) solta qualquer coisa como: “Uau, o dela parece tão real!” antes sequer de pensar.

A boa notícia: não tem de se tornar num adulto impecável que nunca se engana. O que ajuda é criar alguns hábitos simples — que lhe permitem reparar nas escolhas de cada criança, dar-lhes um espaço equivalente para serem vistas e evitar apontar uma delas como “a artista da família”. É esse o essencial.

Porque quando uma criança desenha, não está só a fazer uma imagem. Está a experimentar ideias, a praticar controlo, a contar histórias, a copiar o que adora e, às vezes, simplesmente a aproveitar o chiar de um marcador ou o arrastar de um lápis de cera. Em nossa casa, duas crianças podem estar “a fazer arte” lado a lado e, na verdade, estarem a fazer coisas completamente diferentes (e igualmente valiosas).

Porque é que comparar os desenhos dos irmãos sai pela culatra (mesmo com boa intenção)

A maioria dos adultos compara como um atalho. Estamos a tentar incentivar. Estamos a tentar elogiar. Estamos a tentar manter o ambiente calmo. Mas essas comparações lado a lado podem, em silêncio, criar problemas:

  • O rótulo de “artista” cola-se. Uma criança sente pressão para continuar a impressionar, e a outra começa a perguntar-se porque é que haveria de se dar ao trabalho.
  • As crianças começam a desenhar à procura de aprovação. Em vez de explorarem, estão sempre a confirmar: “Está bom?” de dois em dois minutos.
  • A dinâmica entre irmãos complica-se. O desenho vira uma competição, não um momento de brincadeira e ligação.

Talvez já tenha visto: uma criança está a desenhar feliz, depois ouve elogios ao irmão/à irmã e, de repente, pára. Essa pequena pausa é informação útil. Não significa que alguém seja um mau pai, mãe, avô ou avó — só significa que o ambiente está a influenciar o quão seguro é criar.

Como evitar comparar os desenhos dos seus filhos no dia a dia

Não precisa de uma grande reunião de família. Pequenas mudanças no que diz, onde expõe os desenhos e como responde podem mudar por completo o ambiente.

1) Troque comentários de “melhor” por curiosidade

Em vez de fazer classificações (“Este é o melhor!”), aponte para uma atenção curiosa. É calorosa, é específica e mantém o foco naquilo que a criança estava a tentar fazer.

Experimente perguntas como:

  • “Conta-me o que está a acontecer no teu desenho.”
  • “Qual foi a parte mais divertida de desenhar?”
  • “Como escolheste estas cores?”
  • “Há uma história por trás desta personagem?”
  • “O que aconteceria a seguir se este desenho continuasse?”

Uma coisa que aprendi (a crescer rodeado de arte e agora a ver os meus próprios filhos a criar) é que pode ser igualmente entusiasta sem ser igualmente específico. Uma criança pode querer dar-lhe uma explicação de dez minutos sobre toda a história de fundo do dragão. Outra pode dizer: “É só um camião” e seguir em frente. Ambas estão bem. A curiosidade encontra-as onde elas estão.

2) Dê a cada criança um espaço “equivalente” de exposição (não idêntico)

As crianças reparam na justiça de forma muito visual. Se o trabalho de um irmão acaba sempre no frigorífico e o do outro acaba numa pilha, vai notar-se no ambiente — às vezes, imediatamente.

Equivalente não tem de significar molduras perfeitamente iguais nem exactamente o mesmo número de trabalhos. Significa, simplesmente, que cada criança consegue ver com clareza: o meu trabalho também pertence aqui.

Opções fáceis em casa:

  • O frigorífico dividido: lado esquerdo para uma criança, lado direito para a outra.
  • Pranchetas na parede: uma prancheta por criança, penduradas à mesma altura.
  • Uma “galeria” rotativa: uma prateleira ou um fio onde vai rodando os trabalhos todas as semanas.
  • Pastas ou caixas pessoais: cada criança tem um sítio para guardar a arte “para sempre”.

É uma coisa pequena, mas conta: quando um avô/uma avó visita e vê logo duas pranchetas — cada uma com um desenho recente — isso transmite, sem alarido: “Não estamos a julgar. Estamos a desfrutar.”

3) Pare de chamar a uma criança “a artista” (mesmo como elogio)

Isto é traiçoeiro. “Ela é a artista da família” soa carinhoso, mas pode prender as crianças a papéis:

  • A “artista” pode sentir que já não pode desenhar algo disparatado, desarrumado ou experimental.
  • A outra criança pode decidir: “A arte não é a minha cena” e afastar-se.

Uma troca mais suave é nomear o momento, não a identidade:

  • Em vez de: “És mesmo uma artista.”
  • Experimente: “Deste mesmo tempo àqueles detalhes.”
  • Em vez de: “O teu irmão não sabe desenhar como tu.”
  • Experimente: “Reparei que hoje escolheram ideias diferentes.”

Em nossa casa, as crianças relaxam quando o elogio é sobre o esforço, as escolhas ou a forma de contar a história. Sente-se mais seguro — sobretudo naqueles dias em que a criança fica frustrada porque a imagem na cabeça ainda não está a aparecer no papel.

4) Lide com “Quem fez melhor?” sem transformar isso numa lição

Às vezes, os irmãos pedem comparação de propósito. Estão a testar o terreno. Se uma criança perguntar: “Qual é o melhor?”, pode responder sem escolher um vencedor.

Experimente uma destas respostas rápidas:

  • Reflectir o sentimento: “Queres mesmo que o teu desenho seja notado.”
  • Nomear a diferença: “São dois tipos de desenho diferentes — o teu é sobre acção, e o dela é sobre padrões.”
  • Oferecer uma escolha: “Queres opinião sobre a parte de que te orgulhas, ou sobre a parte que queres mudar?”
  • Tornar narrativo: “Diz-me o que queres que eu perceba quando olho para ele.”

Isto mantém a porta aberta ao crescimento sem transformar o momento num placar.

Crie rotinas que tornam a comparação menos provável

Às vezes, a forma mais simples de parar de comparar a arte dos irmãos é ajustar a preparação. Alguns ritmos da casa fazem grande parte do trabalho.

Torne normal haver “tempo de arte a sós”

Nem todos os momentos criativos têm de ser partilhados. Uma pequena rotina que resulta bem é dar a cada criança, de vez em quando, tempo a sós — dez minutos enquanto a outra ajuda a pôr a mesa, toma banho ou brinca por perto.

Quando as crianças não estão sempre a criar lado a lado, os adultos também deixam de fazer avaliações lado a lado sem sequer se aperceberem.

Experimente materiais partilhados que não recompensam a “habilidade”

Alguns materiais convidam naturalmente à comparação (como tentar desenhar animais “realistas”). Ajuda misturar coisas em que não há um “melhor” óbvio. Na nossa família, é aqui que o lado da minha mulher, que adora trabalhos manuais, brilha — ela põe algo simples na mesa e, de repente, toda a gente está a experimentar em vez de competir.

Ideias acessíveis e sem pressão:

  • Pastéis de óleo ou lápis de cera grossos: óptimos para cor forte e movimento.
  • Autocolantes + marcadores: as crianças constroem cenas depressa; a narrativa passa a ser o foco.
  • Colagem com sobras: revistas antigas, embalagens, recortes de papel, cola em batom.
  • “Desenho” com água e pincel lá fora: numa parede ou no passeio — temporário e libertador.

O mais engraçado é que, quando a actividade é mais sobre experimentar, os adultos comentam naturalmente o processo: “Experimentaste três texturas!” em vez de “O teu é mais bonito.”

O que dizer quando familiares comparam (avós, visitas, amigos)

Mesmo que esteja atento, outra pessoa pode comparar os desenhos dos seus filhos em voz alta. Normalmente não é por mal — é hábito. Pode redireccionar com delicadeza, sem embaraçar ninguém.

Frases úteis para ter na manga:

  • “Estamos a tentar focar-nos nas escolhas de cada um — podes perguntar-lhes sobre o desenho?”
  • “Estão a trabalhar em coisas diferentes. Este está a contar uma história, e este está a explorar a cor.”
  • “Vamos deixá-los mostrar-te o que querem que repares.”

Se quiser um guião mesmo simples para visitas, é este: “Diz o que vês e depois faz uma pergunta.” Funciona mais vezes do que imagina.

Uma actividade rápida em casa: a Galeria de Dois Lugares (sem competição)

Este pequeno ritual ajuda as famílias a parar de comparar a arte das crianças porque incorpora a justiça no próprio ambiente.

  1. Escolha dois espaços de exposição iguais (duas pranchetas, duas molduras, dois ímanes, dois bocados de fita-cola na parede).
  2. Cada criança escolhe uma peça para expor — sem um adulto escolher.
  3. Faça uma “conversa de artista” de 60 segundos com cada criança. O adulto faz duas perguntas:
    • “O que queres que nós reparemos?”
    • “Que parte foi importante ou divertida?”
  4. Rode semanalmente (ajuda ser sempre no mesmo dia da semana).

É só isto. Transforma a arte em ligação em vez de pontuação — e mantém o momento sem ecrãs, que é muitas vezes quando a nossa família se sente mais unida.

Se já comparou… pode reparar

Se disse algo como “A tua irmã desenha melhor”, não estragou tudo. Pode corrigir o rumo de uma forma muito humana.

  • “Estou a perceber que o que eu disse soou a competição. Não é isso que eu quero.”
  • “Adoro ver como tu desenhas. Em que estás a trabalhar hoje?”
  • “Mostras-me a parte de que gostas mais?”

As crianças não precisam de adultos perfeitos. Precisam de adultos que consigam reparar, ajustar e continuar a aparecer com carinho.

Deixe que os desenhos contem histórias diferentes

Uma criança pode desenhar formas pequenas e cuidadas. Outra pode encher a página de cor sem limites. Nenhuma é um “problema” para corrigir. São simplesmente duas maneiras diferentes de estar no mundo — e ambas merecem espaço na mesa.

Da próxima vez que os dois irmãos lhe deslizarem os desenhos ao mesmo tempo, experimente isto: respire uma vez, encontre uma escolha específica em cada desenho e faça uma pergunta curiosa a cada criança. Muitas vezes vai sentir o ambiente amolecer — e talvez repare que ficam mais tempo no trabalho, porque se sentem vistos pelo seu desenho, e não comparados com o de outra pessoa.