Para respeitar o estilo de desenho de uma criança, não precisa de aulas de arte nem de um elogio “perfeito”. Só precisa de uma pequena mudança: ver o desenho como a mensagem do seu filho, e não como um teste que ele tem de passar.

Esse cão roxo, a cabeça gigante, as pernas minúsculas, a personagem “estranha” com três sóis? Isso não são automaticamente erros. São escolhas. Às vezes são brincalhonas. Às vezes são práticas (cabeças grandes são mesmo mais fáceis de desenhar). E às vezes o seu filho está a mostrar-lhe como algo se sente, não como se vê.

Se alguma vez olhou para uma folha cheia de rabiscos e pensou: “Ok… o que é que eu estou a ver?”—bem-vindo. Este é um momento muito normal à mesa da cozinha. Vamos falar sobre o estilo de desenho das crianças (o estilo de desenho infantil que está mesmo à sua frente) e sobre como o podemos apoiar com carinho, curiosidade e zero pressão.

O que significa, afinal, “estilo de desenho das crianças”

O estilo de desenho das crianças é a forma pessoal como uma criança usa linhas, formas, cores e espaço para contar uma história. Inclui:

  • Como seguram no lápis e com que força carregam
  • As formas a que voltam vezes sem conta (círculos, ziguezagues, bonecos-palito, espirais)
  • As suas cores preferidas (incluindo as “inesperadas”)
  • Como organizam a página (pessoas a flutuar, casas inclinadas, um céu em baixo)
  • Personagens, símbolos e temas que se repetem

Uma coisa que muitos adultos não reparam: as crianças podem desenhar aquilo que é mais importante maior, e não aquilo que está “mais perto”. Isso não é falta de técnica—é lógica emocional.

Porque é que desenhos “pouco realistas” são muitas vezes os mais honestos

Os adultos são treinados para procurar realismo. As crianças são treinadas por… serem crianças. O trabalho delas é explorar, e desenhar é um dos lugares mais seguros para experimentar, falhar e tentar outra vez.

Em nossa casa, já passámos anos com lápis, marcadores e materiais de trabalhos manuais espalhados pela mesa—a minha mulher adora tudo o que envolva criar coisas, e eu sou aquele que está sempre a rabiscar nas margens. Também cresci com uma mãe artista, por isso “tornar algo um bocadinho estranho”, recomeçar, e encontrar beleza no processo parece-me natural. As crianças apanham rapidamente esse conforto.

Cores irreais podem significar humor, memória ou pura diversão

Uma cara verde pode ser um monstro. Ou pode ser um “dia de doença”. Ou pode ser o único marcador que ainda escreve. A forma mais rápida de honrar o estilo de desenho de uma criança é perguntar antes de interpretar.

Experimente perguntas como:

  • “Fala-me destas cores—como é que as escolheste?”
  • “Se esta cor tivesse um sentimento, qual seria?”
  • “Esta é a cor verdadeira, ou a ‘cor da história’?”

Proporções diferentes muitas vezes têm a ver com o que importa (ou com o que é mais fácil)

Algumas crianças desenham olhos enormes ou mãos gigantes. Às vezes é porque os olhos mostram sentimentos. Às vezes as mãos “fazem coisas” na história. E às vezes os detalhes pequenos são simplesmente difíceis—sobretudo quando a criança quer que fique incrível na cabeça, mas a mão ainda não chegou lá.

Uma cabeça grande com um corpo pequenino pode ser um atalho inteligente de “ainda estou a aprender”. É esperto, não está errado.

Personagens invulgares são sinal de imaginação a funcionar

Uma gata-robô-princesa? Um autocarro escolar voador? Uma família de pessoas-triângulo? O seu filho está a combinar ideias e a testar possibilidades. Quando respeita isso, está a dizer em silêncio: “O teu mundo interior é bem-vindo aqui.”

A coisa mais útil que pode fazer: pergunte primeiro, interprete depois

É tão tentador adivinhar. “Ah! Isso deve ser a avó!” ou “Isto é um desenho zangado?” Às vezes acertamos. Às vezes substituímos sem querer a história da criança pela nossa.

Aqui ficam perguntas suaves, que criam ligação, e que pode ter prontas:

  • “O que é que está a acontecer aqui?” (simples, aberta, convidativa)
  • “Quem é este/esta?” (deixa que seja a criança a dar nome às personagens)
  • “De que parte gostaste mais de desenhar?” (traz o foco de volta ao processo)
  • “Há algum som neste desenho?” (muitas vezes desbloqueia a narrativa)
  • “Se este desenho tivesse um título, qual seria?”
  • “O que é que eu devo reparar primeiro?” (entrega-lhes a liderança)

Sabe aquele momento: o seu filho desliza o papel na sua direção e fica a observar a sua cara à espera do veredito. O objetivo é que a sua cara diga: “Estou curioso. Estou aqui. Conta-me mais.”

O que dizer (e o que evitar) ao elogiar o desenho de uma criança

O elogio pode ajudar… mas também pode transformar, sem dar por isso, o desenho numa atuação. O ponto ideal é específico, calmo e curioso—um tipo de feedback que não adiciona pressão.

Experimente este tipo de feedback

  • “Reparei que usaste muitos tipos de linhas aqui.”
  • “Preencheste a página toda—isto parece grande.”
  • “Essa personagem parece que tem uma história.”
  • “Ficaste nisto durante bastante tempo.”
  • “Gosto de ouvir o que estás a pensar enquanto desenhas.”

Pense em evitar (ou reformular) estes

  • “Está perfeito!” (pode criar pressão)
  • “Tens imenso talento.” (pode fazer as crianças preocuparem-se em perder o rótulo)
  • “Isso não parece um cão.” (fecha a porta)
  • “Deixa-me corrigir.” (ensina dúvida)

Se lhe der vontade de corrigir, tente uma viragem que mantém a criança no comando: “Mostra-me como querias que ficasse.”

Momentos do dia a dia em que os adultos, sem querer, apagam o estilo de uma criança

Sem culpas—isto acontece em famílias amorosas o tempo todo. Normalmente é rápido, bem-intencionado e fácil de ajustar assim que damos por isso.

Cenário 1: A crítica à galeria do frigorífico

A sua criança cola orgulhosamente um desenho no frigorífico. Entra um avô ou uma avó e diz: “Porque é que o céu é cor-de-rosa?” A criança encolhe os ombros, e quase se vê a confiança a abanar.

Troque por: “Um céu cor-de-rosa—conta-me isso!” Assim, o frigorífico passa a ser um lugar de curiosidade, não de avaliação.

Cenário 2: O contorno “prestável”

Estão à mesa e a sua criança quer desenhar um cavalo. Você começa a esboçar um contorno de cavalo muito bem feito “para ela pintar”. De repente, o papel passa a ser seu, não dela.

Alternativa: “Queres que eu desenhe o meu cavalo ao lado do teu?” Assim fica lado a lado—companhia, não substituição.

Atividades simples em casa que protegem o estilo de desenho das crianças

Não precisa de materiais sofisticados. Algumas pequenas mudanças podem manter o desenho divertido, pessoal e maravilhosamente longe de ecrãs.

1) Ofereça materiais “descontraídos” de vez em quando

Lápis de cera, marcadores laváveis, lápis, papel de rascunho, sacos de papel, o verso do correio (sem dados pessoais). As crianças muitas vezes desenham com mais liberdade quando o papel não parece “demasiado especial”.

  • Mantenha um cesto de desenhos perto da cozinha ou da sala.
  • Junte fita-cola para poderem pendurar os trabalhos sozinhas.

2) Experimente um desafio de “desenho com história” (sem respostas certas)

  • “Desenha um sítio que gostavas de visitar.”
  • “Desenha uma criatura que vive debaixo da tua cama—mas é simpática.”
  • “Desenha a tua família como super-heróis (ou animais, ou o tempo).”

Depois pergunte: “Qual é a história por trás disso?” Muitas vezes vai descobrir mais do que esperava.

3) Façam desenhos lado a lado (não “copia à minha maneira”)

Sente-se com a sua própria folha e desenhe a sua versão. Deixe a criança espreitar se quiser. Não lhe peça para igualar o seu.

Isto pode ser especialmente bonito com avós, tios e tias—duas gerações, dois estilos, uma mesa partilhada.

4) Faça uma caixa “museu de desenhos”

Pegue numa caixa de sapatos ou numa pasta. Uma vez por semana, deixe a criança escolher uma peça para guardar. Acrescente uma notinha no verso:

  • Data
  • Título (nas palavras dela)
  • Resumo “conta-me sobre isto” (uma frase)

Anos mais tarde, essa caixa pode parecer uma máquina do tempo.

Quando está preocupado porque o seu filho “não sabe desenhar”

Muitas crianças passam por fases em que se comparam com irmãos, amigos ou crianças mais velhas. Às vezes desistem mesmo antes de um grande salto de confiança.

Se ouvir: “Eu sou mau a desenhar”, experimente:

  • “Desenhar é algo que se pratica, não algo que ou se tem ou não se tem.”
  • “Queres desenhar por diversão, ou queres aprender um truque novo?”
  • “Vamos começar com formas e ver no que se transformam.”

Também pode oferecer pequenos reforços de técnica sem tomar conta do estilo deles—como mostrar como fazer um círculo com dois C, ou como transformar um retângulo numa casa. Depois afaste-se e deixe-os levar aquilo para um sítio inesperado.

Respeitar o estilo de desenho de uma criança é, no fundo, respeito—ponto final

Quando honramos as escolhas de uma criança no papel, ela sente-se segura para correr riscos criativos. Experimenta mais. Conta mais histórias. Traz-lhe o seu mundo interior com menos hesitação—mesmo quando está frustrada por ainda não parecer “certo”.

Da próxima vez que o seu filho lhe mostrar uma página cheia de rabiscos, experimente isto: faça uma pausa, sorria e pergunte, “O que é que eu devo saber sobre este desenho?” Talvez descubra um pequeno mundo inteiro escondido dentro de algumas linhas coloridas.